La main de Dieu

27/11/2009 at 16:41 | In Uncategorized | Leave a Comment

                       

 

“Tudo o que sei sobre moral e as obrigações do homem devo ao que aprendi no Racing Universitaire de Argel” (Albert Camus)

 

                        No post anterior, referi de passagem à paixão de Camus pelo futebol. Ele foi goleiro do Racing Universitaire de Argel durante dois anos e as crônicas a época fazem referência à sua bravura e ao seu espírito de liderança em campo. Só não seguiu a carreira esportiva porque ficou tuberculoso.

                        Ocorreu-me depois o que diria Camus, com a sua generosa humanidade e senso ético apurado, sobre a conduta do jogador da seleção francesa, Thierry Henry, que no finalzinho da partida contra a Irlanda ajeitou descaradamente a bola com a mão e fez o passe para o gol salvador, que classificou Les Bleus para a Copa de 2010 (veja aqui).

                        As imagens de televisão não deixam dúvida quanto à irregularidade, admitida pelo próprio Henry. Mesmo assim a FIFA ainda não sabe o que fazer. Fala-se em anular a partida e determinar que se jogue outra, o que de todo modo favoreceria a França, que estava perdendo e no desespero já nos minutos de acréscimo dados pelo árbitro.

                        O acontecimento pode parecer prosaico para se discutir sobre certo e errado, bem e mal, livre arbítrio, o imperativo categórico de Kant, mas a filosofia não deve ser reservada ao empíreo, e sim servir ao dia a dia humano. Camus, com seu talento e sensibilidade, certamente escreveria um grande texto a partir desse fato aparentemente banal.

                        Em O mito de Sísifo, um dos seus melhores ensaios, escrito durante a Segunda Guerra Mundial, Camus trata do trágico impasse da condição humana. Segundo a lenda grega, Sísifo era um rei que havia ofendido Zeus, e como punição foi condenado a rolar uma enorme pedra até o cume de um monte íngreme. Cada vez que ele chegava ao topo, a pedra rolava morro abaixo, obrigando Sísifo a recomeçar, indefinidamente.

                        Para Camus, o homem, assim como Sísifo, se vê jogado em uma existência marcada pelo absurdo e pela fragilidade, limitada nos dois extremos pelo inútil ou pelo nada. Só lhe resta, pois, tentar viver dignamente, com lucidez e heroísmo, ainda que a vida possa ser desprovida de significado.

                        Como estou muito longe da maestria de Camus, no plano da minha mediocridade a atitude de Henry me leva a refletir mais uma vez sobre o significado épico do futebol, de que já tratei antes aqui.

                        Como na mitológica guerra de Tróia, em que os gregos só derrotaram os troianos graças ao ardil do cavalo de pau, a seleção francesa triunfou mercê da artimanha de um dos seus guerreiros.

                        Tão temperamentais quanto os deuses do Olimpo são os deuses do futebol, e nisso está toda a graça desse esporte, talvez o único em que o mais forte e o melhor nem sempre vence. As chamadas zebras acontecem com frequência, ao contrário do que ocorre no basquete, no vôlei, no tênis e em todas as outras modalidades esportivas, nas quais a vitória do mais fraco é raríssima.

                        Por isso mesmo sou radicalmente contra o uso de recursos eletrônicos no futebol, como defendem muitos, para dirimir as decisões duvidosas dos árbitros. Creio também que será um grande erro modificar a regra do impedimento ou considerar como falta o simples toque da bola na mão ou no braço, com ou sem intenção, como é costume  nas peladas, mas apenas por questão prática, à falta da figura do árbitro e para evitar que as discussões intermináveis acabem com a brincadeira.

                        Sem as controvérsias, as marcações duvidosas, até mesmo sem as vitórias e derrotas injustas que propicia, o futebol perderia o seu encanto único e se igualaria a todos os demais esportes. Diferentemente desses outros, em que as interrupções fazem parte do desenvolvimento da partida (para sacar, para trocar de lado, para combinar as jogadas e mudar o time todo, como no futebol americano, para descansar entre os assaltos, como no box ou em outras lutas), o jogo de futebol é um continuum que seria ferido de morte por paralisações constantes.

                        O que talvez seja aceitável é aumentar o número de auxiliares ou bandeirinhas, para postar mais um ou dois atrás das metas. Mesmo o tal de chip eletrônico na bola para sinalizar se ela atravessou a linha de gol não me entusiasma.

                        Até hoje se discute se a bola entrou ou não no gol marcado pela Inglaterra na final contra a Alemanha, na Copa de 1966. E sobre La mano de Dios de Maradona, na Copa de 1986, contra a mesma Inglaterra, que assim se viu punida pelos mesmos deuses do futebol vinte anos depois.

                        Temos agora La main de Dieu de Henry, que por certo também passará para a história mítica do futebol

                        Isso significa que no futebol a ética não entra em campo?

                        Não se trata disso. O sentido ético é o sentido que se dá à própria existência e ao mundo, em todos os seus aspectos.

                        Apesar disso, o futebol, como representação do humano, revela que na vida a ética nem sempre prevalece.

                        Os gregos venceram a guerra contra Tróia, Aquiles e Ulisses são tidos como heróis, e quase ninguém se lembra do ético Heitor, como poucos se lembrarão do goleiro ou dos zagueiros da Irlanda, ludibriados por Henry. Aliás, alguém se recorda o nome do goleiro da Inglaterra que disputou a bola com Maradona?

                        Assim é a vida. Essa, a lição.

                        A cada um caberá sempre a escolha.

                        Esse, o dilema.

 

 

A voz do albatroz

25/11/2009 at 14:42 | In Uncategorized | 2 Comments

                     

 

 

                              “Os que conseguem chegar à velhice, entretanto, sabem que não adianta achar que são loucos, porque todos são e constitui faina das mais ingratas prender as loucuras dentro de gaiolas desconjuntadas, temendo sempre que elas se soltem. De forma que a pessoa a quem a idade deu um adequado senso da existência tira sempre um tempinho, conforme suas particularidades, para acomodar a loucura, a fim de que ela não se veja presa em demasia e se revolte.” (João Ubaldo Ribeiro, O Albatroz Azul).

 

 

                        Consta que Oscar Wilde, com seu sarcasmo ferino, ao rever um colega que há muito não encontrava, justificou-se:

                        ― Desculpe-me por não o ter reconhecido. Eu mudei muito!

                        Creio já haver dito em algum post anterior que reconheço um verdadeiro amigo quando, depois de muito tempo sem nos encontrarmos, simplesmente nos pomos a conversar, como se o assunto continuasse e o tempo não tivesse passado, sem perder mais tempo com explicações e desculpas da ausência.

                        Os escritores de que mais gosto, mesmo que não os tenha conhecido pessoalmente (o que talvez seja preferível), tornam-se esse tipo de amigo para mim.

                        Pode passar muito tempo sem que escrevam, porque morreram, ou justamente porque estão vivos, posso eu passar longo período sem ler ou reler seus escritos, mas quando finalmente nos reecontramos num livro, numa página, num verso, a magia do momento é só um prolongamento de outros momentos memorosos.

                        Quando abro um dos livros de Manuel Bandeira, ele entra pela minha casa pigarreando, com seus óculos grossos, o sorriso dentuço, sem nenhuma cerimônia, como alguém da família. Senta-se no sofá, faz festa para o cachorrinho que pula no seu colo e lhe lambe a mão.

                        Drummond, com a falsa timidez de mineiro, aparenta alguma relutância, mas pouco a pouco se solta, aceita o café e um copo d’água, e logo começa a desfiar sua fina ironia e seu ceticismo esperançoso com a voz frágil e melancólica. Ri muito das anedotas fesceninas, mas se preocupa em verificar se não há mulheres por perto.

                        Machado, claro, é aristocrático e formal. Homem de outros tempos, mas absolutamente atual. Senta-se aprumado na velha cadeira estofada que foi do meu avô. Observa mais do que fala. O que tem a dizer está na sua obra, um diálogo contínuo com o leitor.

                        São muitos outros bons amigos a me visitar: Pessoa, que, matreiro, tenta me confundir com qual deles estou tratando; Vinicius e João Cabral, que vivem a gozar um ao outro; Borges, que me faz ler para ele, mas frequentemente completa os trechos que comecei; Simenon, quase sempre acompanhado do Comissário Maigret; Poe, que só vem depois da meia-noite, com o corvo no ombro, como um papagaio de pirata; Camus, que deve andar feliz da vida com a classificação da sua Argélia para a Copa de 2010. E também as mulheres:  Cecília Meireles, cuja delicadeza contrasta com o vigor de seus versos; Clarice, sempre bem vestida, perfumada e com um cigarro entre os dedos. Fala bastante, mas às vezes cai em profundo silêncio, como se penetrasse num mundo só dela. Já a surpreendi  folheando, muito interessada, o livro de receitas da minha mulher (que quase  nunca o usa, preferindo criar pratos únicos, como já contei aqui).

                        Os vivos também dão o ar da graça: Ferreira Gullar, António Lobo Antunes, Saramago (com seu mau humor e descrença que às vezes me soam jogo de cena), Vargas Lhosa, Paul Auster, J. M. Cootzee, Salinger (que por mais que envelheça e se esconda, continua o mesmo adolescente rebelde).

                        Estava sentindo a falta de João Ubaldo Ribeiro, com seu vozeirão grave e sua simpatia cativante. Ao vê-lo conversando com alguém, mesmo quando entrevistado, fica evidente que se trata de um grande papo, daqueles que faz o próprio tempo deter-se para ouvi-lo. Esteve adoentado e deprimido, recuperou-se, voltou a trabalhar muito, mas nada de um novo romance.

                        A longa espera de sete anos valeu todas as penas quando ele me apareceu em casa com seu O Albatroz Azul. Li as primeiras páginas enquanto aguardava o almoço, e passei o resto do dia impaciente, louco para retomar a conversação. De volta para casa, varamos a noite e só nos despedirmos quando o sol nascia e o albatroz alçou voo pela janela, “a sombra de sua enverguadura majestosa por um momento cobrindo o céu”, deixando-me de olhos marejados com a história do velho Tertuliano Jaburu, de muitos filhos e netos, mas que de repente ganha um novo neto que nasce de cu pra lua.

                        No meu aprestamento para ser avô da Manuela,  foram-me valiosas as ensinanças do precatado e calejado Tertuliano, e com ele pude compreender o sorvedouro de emoções que me engolfa, mas em vez de aniquilar, me salva e redime.

                        Foi bom demais reencontrar João Ubaldo com seu jeitão deleitoso de sempre, de volta à sua Ilha de Itaparica e seu universo mítico. Nem ele, nem eu mudamos muito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Laura, uma velha paixão

23/11/2009 at 11:02 | In Uncategorized | 3 Comments

                            

 

                              Faz muito tempo. Como quase tudo hoje na minha vida.

                              Eu era bem pequeno, devia ter uns quatro ou cinco anos. A idade deve ser essa porque ainda não sabia ler, e aos seis, já.

                              Meu avô Tufy tinha uma daquelas velhas vitrolas de alta fidelidade e uma boa coleção de discos, as famosas bolachas de 78 rotações, grossas e pesadas, que se quebravam facilmente. Por isso eram guardadas zelosamente em dois ou três álbuns, cuja capa era de couro, com divisões internas de papelão para acondicionar os discos, um a um.

                              O gosto musical do meu avô era eclético: músicas árabes (uma de suas paixões), algumas dos compositores clássicos, e muitas do cancioneiro popular: Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Francisco Alves, Nora Ney, Marlene (que, quando moça, ele achava muito parecida com minha mãe, seu xodó), entre outros. Havia também vários discos com músicas temas de filmes de sucesso.

                              Os discos eram todos muito parecidos, até mesmo as etiquetas, a grande maioria da RCA Victor, com o clássico emblema do cachorrinho ouvindo um gramofone.

                              Não sei explicar com que manhas e artes, mas mesmo não sabendo ler conseguia identificar qualquer disco que meu avô me pedisse, tirá-lo do álbum e entregá-lo para ser posto a tocar. Meu avô, coruja como ele só (qualquer semelhança não será mera coincidência) considerava isso um verdadeiro prodígio do seu primeiro neto, prova de grande inteligência e vivacidade. Quando recebia visitas, e a vitrola era exibida com orgulho e posta para funcionar, fazia questão de lhes demonstrar a capacidade ímpar do menino, que por certo não passava de senso de observação mais aguçado, comum em todas as crianças.

                              Uma das músicas que me fascinavam na coleção do meu avô era o tema do filme Laura (From Laura). Na época fiquei sabendo disso exatamente por gostar muito dela e haver perguntado a respeito.

                                                                  Muitos anos depois, num fim de noite e na companhia do meu avô e de meu pai, assisti pela primeira vez   Laura  na televisão, um clássico do cinema noir americano (o detetive durão que se apaixona pelo retrato da linda mulher morta), que se tornou um dos meus filmes cults, dirigido por Otto Preminger, e estrelado por Gene Tierney (belíssima e de um charme arrebatador), Dana Andrews, Clifton Webb e Vincent Price. Também a sonoridade do nome me agradava, e agrada ainda, a ponto de cogitar dá-lo a uma das minhas filhas.     

       

                              Fico sabendo agora que o centenário de um dos autores de Laura, Johnny Mercer (a música é de David Raksin, ouça e veja  aqui), nascido no dia 18 de novembro (mais um escorpiano), é celebrado nos EUA, com um documentário (Johnny Mercer, the man and his music), produzido por Clint Eastwood, e o lançamento de um livro com suas mais de 1.200 letras, escritas para melodias dos mais famosos compositores americanos, como Harold Arlen, Henry Mancini, Duke Ellington.

                              Johnny Mercer era reverenciado, entre vários outros, por Frank Sinatra, intérprete de muitas das suas canções, quatro das quais ganharam o Oscar, e dezenove outras foram indicadas para a premiação.

  Johnny Mercer

 

 

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20/11/2009 at 23:50 | In Uncategorized | 3 Comments

                        Nas Pílulas, Zumbi e Tiradentes: qual a diferença?

Manifesto encoberto

20/11/2009 at 17:12 | In Uncategorized | 2 Comments

                       

 

 

                        Além de sexta-feira, feriado.

                        Estava tão animado e ansioso que chegou muito cedo no bar do Mineiro, pouco antes das dez horas da manhã. O pessoal costumava vir mais tarde, por volta das onze horas.

                        Mas não se importou. Foi até ao freezer, com a liberdade de freguês velho e de confiança, apanhou a garrafa de vodca, enregelada por fora, mas com o líquido leitoso, e se serviu de uma dose generosa. Apesar do horário, a bebida era para limpar-lhe a serpentina e ajudá-lo a repassar o plano que há alguns dias costurava na cabeça desocupada.

                        Sentado à mesa de costume do boteco, bebericou prazerosamente, à espera dos amigos, que um a um foram chegando.

                        Quando todos já estavam lá, e as primeiras conversas e gozações silenciaram por um instante, tomou da palavra e procurou falar em tom solene:

                        — Conspícuos camaradas, alguém ainda se lembra de Ruy Barbosa, o Águia de Haia?

                        — Jogava em que time? Com esse apelido devia ser grande cabeceador, como Dadá Maravilha, o Beija-Flor, aparteou Zé Rosa, o maior gozador da turma.

                        — Deixa de ser idiota. O grande Ruy Barbosa, da Oração aos Moços…

                        — Ah, então é pastor ou bispo dessas novas igrejas, insistiu Zé Rosa.

                        — Não me enche o saco, Zé. Outro dia, folheando as obras completas do Ruy, dei com aquela famosa frase proferida no Senado Federal, “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Foi aí que me ocorreu a ideia que agora passo a vocês. Por que não fundamos um novo partido político, diferente de tudo o que anda por aí?

                        — Tá ficando lelé ou a senilidade chegou de vez? Aliás, desde que você recebeu a notícia do nascimento da sua primeira neta anda meio tonto, pisando os astros distraído, como naquela velha canção, interveio Antonico.

                        — Não é nada disso. Mas talvez tenha mesmo relação com nossa responsabilidade pelo marasmo das novas gerações. Esqueceram de como a gente era no tempo da faculdade, das brigas políticas, dos nossos ideais, da vontade de mudar o mundo?

                        — Pois é. Foi bom enquanto durou. O sonho acabou, como já disse John Lennon. Nosso tempo se esgotou e fracassamos. Eles passaram, ficaram e continuam por aí, resmungou Nestor, com o azedume costumeiro.

                        — Pois me escutem antes de decidir. Não sou idiota nem demente para achar que temos condições de criar um partido, com tantas exigências legais, e muito menos de chegar ao poder. O meu objetivo é outro. Chamar a atenção, fazer barulho, zoar e assim, quem sabe, despertar o interesse dos mais jovens. Nós sempre fomos bons nisso. Imaginem a divulgação que podemos ter com a internet. Pensei em criar uma página e lançar um manifesto. Pelo menos vamos nos divertir e agitar um pouco.

                        À medida que os copos de cerveja se esvaziavam, as ideias começaram a pipocar, de início na base da galhofa, mas pouco depois estavam todos realmente empenhados, com os rostos sanguíneos, esbravejando e trocando insultos como nos bons tempos, cada qual querendo impor sua opinião.

                        — Acho que o partido deve adotar como símbolo o jegue, que representa a miséria e a força do nosso sertão. Além disso, tem sido vítima de grande injustiça, abandonado e trocado por bicicletas, motos e automóveis, produtos da sociedade consumista, berrava um.

                        — Que jegue nada. Vai parecer que plagiamos o burrinho do partido democrata americano, discordava outro.

                        — Minha proposta é de que o bicho símbolo seja o canguru, que é da Austrália, o Brasil que deu certo. E já vem com bolsa para agasalhar apaniguados e esconder dólares, evitando que sejam enfiados na cueca, atalhava um terceiro.

                        Ninguém voltou para casa em tempo de almoçar, e os celulares tocaram incessantemente com as broncas das mulheres.

                        No final da tarde, chegaram ao consenso definitivo de que o Mineiro seria o presidente de honra da nova agremiação, e um acordo provisório sobre a sigla do partido, PMENG, e o texto do primeiro manifesto, redigido ali mesmo na mesa do boteco, sujeito a correções:

 

PRIMEIRO MANIFESTO DO PARTIDO ME ENGANA QUE EU GOSTO (PMENG)

 

                        Nosso partido cumpre o que promete.

                        Só os tolos podem crer que

                        Não lutaremos contra a corrupção.

                        Porque, se há algo certo para nós, é que

                        A honestidade e a transparência são fundamentais.

                        Para alcançar nossos ideais

                        Mostraremos que é grande estupidez crer que

                        As máfias continuarão no governo, como sempre.

                        Asseguramos sem dúvida que

                        A justiça social será o alvo de nossa ação.

                        Apesar disso, há idiotas que imaginam que

                        Se possa governar com as manchas da velha política.

                        Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que

                        Se termine com os marajás e as negociatas.

                        Não permitiremos de nenhum modo que

                        Nossas crianças morram de fome.

                        Cumpriremos nossos propósitos mesmo que

                        Os recursos econômicos do país se esgotem.

                        Exerceremos o poder até que

                        Compreendam que

                        Somos a nova política.

 

P.S.                 Caso o partido chegue ao poder, basta ler o manifesto de baixo para cima.

                        O “texto” do manifesto (apenas ele) foi recolhido na coluna do agudo jornalista Gaudêncio Torquato, Porandubas Políticas, que recebo e acesso por meio do site Migalhas.

 

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Descobrindo Fernanda Young

18/11/2009 at 15:38 | In Uncategorized | 7 Comments

                

       

                        Durante algum tempo Fernanda Young me irritava. Especialmente quando participava do Saia Justa, exibido pelo canal a cabo GNT, programa em que um grupo de mulheres — algumas inteligentes, outras, nem tanto — se reúnem e parece que combinam só dizer asneiras ou abobrinhas, a começar da apresentadora ou mediadora, Mônica Waldvogel.

                        Talvez por isso mesmo as mais inteligentes e interessantes aguentam pouco e logo caem fora, como aconteceu com a própria Fernanda Young e Ana Carolina.

                        De Fernanda Young tinha lido O Efeito Urano, que achei apenas razoável, e a sua figura pública ou televisa, as coisas que falava, me pareciam falsas, artificiais, preparadas para causar estranheza ou polemizar.

                        A partir do programa que ela passou a comandar no mesmo canal, Irritando Fernanda Young, a que assisto apenas uma vez ou outra, comecei a mudar de ideia. Ela realmente é diferente, tem luz própria e o que dizer, concorde-se ou não.

                        Como mulher, ela nunca fez o meu tipo. Tem um rosto bonito e expressivo, mas para o meu gosto é muito magra, além de me causar certa repulsa o excesso de tatuagens que ostenta. O que se há de fazer? Sou um amante à moda antiga, que aprecia as mulheres de formas generosas e de pele imaculada, conquanto reconheça que uma pequena tatuagem, em local estratégico, possa ser estimulante.

                        Quando soube que Fernanda Young ia pousar nua para a Playboy, não estranhei, mas não tinha a mínima intenção de comprar a revista.

                        Mas eis que ela, demonstrando a sua inteligência e sagacidade, desafia os homens a fazer com que a edição em que aparece nua venda mais do que as edições com as peladonas do Big Brother!

                        Adorei a sacada e a provocação, e no último domingo comprei a revista, o que não fazia há muito tempo.

                        Lá estava ela na capa, vestida de coelhinha da Playboy, o que já é uma clara gozação.

                        O ensaio fotográfico é de muito bom gosto, e ela está bonita e sensual, embora fisicamente continue a não ser o meu tipo.

                        Dois detalhes me chamaram a atenção. Ela conserva os pelos pubianos em quantidade razoável e no formato natural, sem apelar para aqueles ridículos cortes à bigodinho hitleriano ou chapliniano.

                        O outro é que em várias fotos ela está amarrada ou submissa (dentro de uma gaiola). É bem provável que não passe de mais uma ironia, mas também pode representar um desejo oculto da mulher inteligente, de personalidade forte, que pensa e fala o que pensa, coisas que costumam assustar a maioria dos homens.

                        Fiz minha parte. Se depender de mim, ela ganha longe das gostosonas burras do Big Brother e quejandas.

 

P.S.                 Podem me chamar de fingido, mas a revista traz ainda ótimas matérias com Alex Atala e Antonio Fagundes, além de um bom conto de Nelson Motta.

                        A propósito, ainda, comprei um livro escrito pelo atual editor da Playboy, Edson Aran, intitulado Delacroix escapa das chamas, que me atraiu pelo título e ao folheá-lo, do qual li apenas alguns trechos, mas me pareceu bem interessante. A confirmar.

 

 

 

 

Minha queda do muro de Berlim

17/11/2009 at 15:33 | In Uncategorized | 5 Comments

muro de berlim

 

                        O nosso bom José de Alencar proclamava: “Todos cantam sua terra / Também vou cantar a minha”.

                        Peço licença para parodiá-lo e dizer: todos contam a queda do muro de Berlim, também vou contar a minha.

                        Não me entendam mal. Não levei um tombo do muro de Berlim. Trata-se de um fato curioso que presenciei — pela televisão, é claro — quando daquele acontecimento histórico.

                        Estava eu diante do que o saudoso Sérgio Porto cognominava de máquina de fazer doido, assistindo ao jornal noturno da Globo, que noticiava o evento épico, para muitos o marco do fim do século XX ou da própria história, quando um dos enviados especiais entrou diretamente de Berlim (não sei se ao vivo ou em matéria gravada), descrevendo euforicamente os acontecimentos que as imagens bem mostravam: uma grande folia cívica, com brindes de champanhe, abraços e beijos, muita gente sobre o muro, outros arrancando-lhe pedaços de recordação.

                        Em seguida, cada vez mais entusiasmado, o diligente repórter (não tenho certeza, mas creio que era o Bial) descobriu que havia alguns brasileiros por lá, e passou a entrevistá-los, colhendo-lhes as impressões e os depoimentos para a posteridade.

                        Entre os entrevistados, logo se destacou um casal, formado por um homem já maduro e uma moça muito bonita, bem mais jovem do que ele, que falava com fluência, a demonstrar conhecimento e cultura.

                        Por isso mesmo a entrevista se alongou um pouco mais do habitual no reduzido tempo da televisão, permitindo-me que identificasse o homem, que matreiramente disse se chamar Rubens.

                        — Mas esse cara é o Rubem Fonseca, berrei eu para aqueles que estavam próximos e me olharam desconfiados. A entrevista prosseguiu e foi encerrada sem esclarecer se eu tinha razão.

                        Entenda-se. Rubem Fonseca, que estava no auge do seu prestígio como escritor, sempre foi um tipo arredio, que raramente se deixa fotografar ou concede entrevistas. Pior do que ele só Dalton Trevisan, O Vampiro de Curitiba.

                        Mesmo assim, eu que nunca fui repórter ou jornalista, conhecia-lhe a figura. Tempos antes, havia passado alguns dias no Rio de Janeiro e numa manhã, bem cedinho, trotando pelo calçadão, tive quase certeza de que o sujeito que ia um pouco à frente era ele, que pelo menos naquela época era sabidamente adepto do então chamado Cooper.

                        Apertei o passo para acompanhá-lo de perto (ele ia mais rápido do que eu), até que depois de um bom tempo ele parou numa barraca para tomar água de coco. Disfarcei e parei também, mas não tive coragem de abordá-lo, pois sou incapaz de forçar intimidade ou bancar o admirador importuno.

                        Logo depois ele se foi e prossegui na minha (agora) caminhada pelo calçadão, sem ter comprovado que era mesmo o Rubem Fonseca, mas achando que sim.

                        O mesmo aconteceu quando da transmissão televisiva. Um ou dois dias depois, porém, a própria Globo confirmou que se tratava dele, e repetiu a matéria em que o seu enviado especial comeu a maior barriga e perdeu um grande furo.

                        Como se vê, para mim não foi propriamente uma queda, e sim uma subida de prestígio, pelo menos no meio familiar. Mas durou pouco. Logo caí do pedestal e tornei ao rés do chão, que é onde devemos estar.

 

 

Além do sonho

14/11/2009 at 07:50 | In Uncategorized | 2 Comments

                 

 

                        Despertou lentamente, como se atravessasse um túnel extenso, com a sensação de que alguém o aguardava no final. 

                        Acendeu a luz do abajur para ver que horas eram, e deu de cara com o Dr. Freud sentado numa poltrona, ao lado da cabeceira da cama.

                        Não teve dúvida de que era mesmo o Dr. Freud, com sua barbicha branca, de paletó e colete, sobre o qual pendia a corrente do relógio de bolso, o semblante circunspecto.

                        — Conte-me o que sonhava, pediu-lhe o Dr. Freud.

                        — Assim, de imediato, não consigo me lembrar, respondeu-lhe.

                        — Hum, hum, interjecionou o Dr. Freud.

                        Isso era bom ou ruim?

                        — Espere aí, Dr. Freud, agora lembrei. Eu estava sonhando com o senhor!

                        — Hum, hum, repetiu o Dr.Freud.

                        Isso era bom ou ruim?

                        — Gozado que no meu sonho o senhor estava mais moço, com a barba negra, bonitão, parecia um pouco com Montgomery Clift naquele filme do John Huston sobre o senhor. Acho que o roteiro foi escrito pelo Sartre, e o título em português é Freud, além da alma.

                        O Dr. Freud continuava impassível, observando-o.

                        Isso era bom ou ruim?

                        — Mas que coisa estranha! O que significa isso, Dr. Freud? O senhor representa meu pai? Ou então a autoridade? Talvez uma manifestação de homossexualismo latente?

                        — Hum, hum, tornou a resmungar o Dr. Freud.

                        Isso era bom ou ruim?

                        Calou-se, angustiado.

                        — O senhor se incomoda se eu fumar um charuto?, indagou o Dr. Freud depois de alguns instantes de silêncio ensurdecedor, que lhe pareceram seculares.

                        — Hoje tem uma lei muito rigorosa do governador Serra contra os fumantes, mas como estamos na minha casa, e no meu quarto, acho que não há problema. O charuto não me incomoda. Eu não fumo, mas de vez em quando também gosto de saborear um bom charuto, respondeu.

                        — Às vezes um charuto é só um charuto, sentenciou o Dr. Freud, enquanto acendia cuidadosamente um Reina Cubanas.

                        Pensou em alertar que de tanto fumar charutos ele morreria de um doloroso câncer no palato, mas não teve coragem.

                        Isso era bom ou ruim?

                        Novo silêncio, enquanto o Dr. Freud dava longas baforadas.

                        O aroma adocicado do charuto era agradável, e se impregnava no quarto, que continuava a meia luz, apenas com o abajur aceso.

                        As espirais de fumaça foram se espalhando e adensando como uma bruma, até que já não mais conseguisse ver o Dr. Freud, embora ainda sentisse sua presença e vislumbrasse de quando em quando o lume do seu charuto.

                        Pouco a pouco o cheiro e a fumaça foram se dissipando, e quando finalmente tudo se clareou no quarto, cujas luzes do teto ele acendeu, o Dr. Freud tinha desaparecido.

                        Não sabia se isso era bom ou ruim.

 

freud 2 

 

 

 

 

A cruz do cinema brasileiro

13/11/2009 at 12:00 | In Uncategorized | 1 Comment

 

 

anselmo duarte

                        A morte de Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas, o único filme brasileiro a receber até hoje a Palma de Ouro no Festival de Cannes, é o epílogo de uma história pessoal de luta, talento, triunfo e desilusão que reflete a própria história do cinema brasileiro.

                        Adaptação da peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas derrotou no Festival de Cannes de 1962, entre outros, filmes de mestres como Antonioni (O Eclipse), Buñuel (O Anjo Exterminador) e Robert Bresson (O Processo de Joana D’Arc), obtendo a consagração de um júri que entre seus integrantes tinha nada mais, nada menos, do que François Truffaut.

                        Isso não impediu (ou talvez tenha sido a causa para) que Anselmo Duarte fosse devastado por muitos críticos brasileiros e pelos luminares do Cinema Novo, que tacharam o filme de acadêmico e quadrado, na contramão da nova estética. Chegaram a disseminar versões difamatórias, jamais confirmadas, de que O Pagador de Promessas somente se sagrou vencedor em razão do impasse dos jurados entre os filmes de Antonioni e Buñel, e ainda de que Anselmo, valendo-se do seu tipo de galã (o que também nunca lhe foi perdoado) teria namorado a assessora de imprensa do festival e por meio dela caído nas boas graças do júri.

                        Esse patrulhamento, odioso sob todos os aspectos, e que me enoja, é muito comum no Brasil. Tom Jobim é outra vítima dele, criticado por ressentidos do seu grande reconhecimento internacional. Quase foi apedrejado em praça pública quando cedeu os direitos da sua antológica Águas de Março para que a melodia fosse utilizada numa campanha da Coca-Cola. Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Morais também sofreram pelo seu sucesso. Aliás, Tom Jobim, na época dos ataques pela cessão de Águas de Março, definiu bem o que nos acontece:

                        — Brasileiro perdoa tudo, menos o sucesso!

                        Depois do massacre sofrido, Anselmo Duarte ainda conseguiu realizar alguns filmes apreciáveis, como Vereda da Salvação e O Crime do Zé Bigorna, mas, desgostoso e amargurado, acabou por se afastar do cinema até morrer aos 89 anos, praticamente no ostracismo.

                       o pagador de promessas

Acadêmico ou não (e que mal haveria nisso?), O Pagador de Promessas é um grande filme e resistiu muito bem ao tempo. Tornei a assisti-lo e não me decepcionei. O roteiro, a direção de atores, os cenários, a fotografia são excepcionais, e alguns planos e enquadramentos, de grande criatividade.

 

                        Enquanto isso, para aonde caminha o cinema brasileiro? Continua a ser uma promessa não paga?

                        Assim pensa o francês Jean-Michel Frodon, ex-crítico do jornal Le Monde e ex-diretor da revista Cahiers du Cinèma, para quem os filmes nacionais são promessas que não se cumpriram e Walter Salles é um fenômeno isolado. Considera Ensaio sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles, filmes internacionais, e ruins (Folha de S. Paulo, Triste Cinema Brasileiro, Ilustrada, E1, 2/11/2009).

                        Mas há também quem aponte para o ressurgimento do cinema brasileiro, com uma nova geração de diretores promissores.

                        De fato, nos últimos anos foram realizados alguns bons filmes. Outros, apesar do forte apelo comercial (o que também não se pode simplesmente desprezar, se pretendemos criar uma indústria cinematográfica e conquistar público), são pelo menos bem feitos e assistíveis.

                        Um dos filmes de que mais gostei recentemente, e com o qual me comovi até as lágrimas, teve uma trajetória meteórica pelas salas de exibição, mas já saiu em DVD e pode ser visto. Trata-se de A Via Láctea, que ganhou diversos prêmios, foi selecionado para abrir a Semaine de la Critique, do Festival de Cannes de 2007. via láctea 2

                        Produzido e dirigido por Lina Chamie, tem como protagonistas, com grandes atuações, Marco Ricca e Alice Braga, mas também é personagem a própria cidade de São Paulo, com suas avenidas, ruas e esquinas, com seu trânsito caótico, transeuntes, paisagens e dramas urbanos.

                        E mais não direi. Assistam e me digam.

 

 

 

12/11/2009 at 10:52 | In Uncategorized | 1 Comment

 

                        O apagão político brasileiro, nas Pílulas.

 

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