Tristes tempos
04/11/2009 at 15:59 | In Uncategorized | 1 Comment
A vida humana é uma sucessão de perdas e tristezas que se intensifica quando mais se vive, interrompida por momentos de não tristeza, a que se podem chamar alegrias, pouco ou menos breves, mas sempre passageiras como é próprio do instante.
Não creio na felicidade humana como um estado ou sentimento permanente, nem mesmo que o homem haja nascido para ser feliz, como apregoam os arautos da auto-ajuda. Dias desses assisti a um deles pontificado na televisão sobre a verdadeira maravilha de termos vencido a corrida com milhões de espermatozóides para fecundar o óvulo materno e, depois disso, de chegarmos ao termo da gestação, que inúmeras vezes de frustra sem que a mulher nem mesmo perceba que esteve grávida. Isso, para ele, significa que já nascemos vencedores! Não pude deixar de me lembrar de um dos primeiros filmes de Woody Allen, Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar, em que num dos episódios ele interpreta um espermatozóide em dúvida metafísica diante da ejaculação iminente, temendo não apenas a ferrenha disputa pelo óvulo, mas a possibilidade de que se tratasse de mera masturbação. 
A simples perspectiva da morte, da inexorável finitude, os dilemas morais, os mistérios insondáveis que nos afligem cotidianamente são incompatíveis com a beatitude (salvo para os santos e os loucos, se é que eles existem). O que talvez possamos lograr é algum entendimento ou aceitação do que somos, certa concepção estética para a existência humana.
Isso não implica, porém, que não goste da vida, que não dê a ela valor ou significado algum. Muito pelo contrário. São esses desafios e inquietudes que lhe dão especial sabor e sentido, e talvez o que mais me perturbe seja o grande apego à vida.
A discreta morte de Claude Lévi-Strauss, às vésperas de completar 101 anos, me despertam essas reflexões, com as quais talvez ele não concordasse.
Não pretendo discorrer aqui, mesmo porque me faltam atributos para tanto, sobre as suas qualidades como antropólogo e pensador, a sua inestimável contribuição para a cultura brasileira ao participar da criação da USP e depois se embrenhar pelo interior do Brasil, para nos revelar aspectos de culturas indígenas formadoras em parte do que somos, ou poderíamos ser.
Li o seu mais famoso livro, ao menos no Brasil, Tristes Trópicos (cujo título é um verdadeiro achado) quando fazia o antigo curso Clássico, entre os 16 e 17 anos. Impressionaram-me o estilo agradável e literário, as considerações acerca das culturas primitivas, da importância dos mitos (coisa que adoro até hoje), mas não posso dizer que o tenha compreendido bem àquela época. Nem mesmo sei se as ideias que faço hoje de Tristes Trópicos e do pouco mais que li de e sobre Lévi-Strauss não estejam deturpadas pela memória ou pela má apreensão (é bem provável que sim).
Tenho dúvidas, por exemplo, de que as ciências humanas ou culturais, como a antropologia, sejam capazes ou mesmo devam pretender elaborar leis gerais válidas para todos os casos iguais, como as leis das ciências físico-naturais. Não me parece, tampouco, que todas as culturas particulares devam merecer sempre o mesmo reconhecimento ou a mesma dignidade. A cultura talibã ou culturas primitivas que praticam atrocidades impensáveis contra mulheres e outros seres humanos devem ser respeitadas mesmo assim, na sua pureza? Manifestações boçais como a famigerada farra do boi em Santa Catarina devem ser preservadas, em nome da tradição cultural? De outra parte, ao que me lembro, de modo contraditório Lévi-Strauss manifesta clara antipatia pelo Islã e pelo mundo mulçumano (em relação aos quais o Talibã, a Al Qaeda e os aiatolás são distorções ou perversões, diga-se), o que somente aprofundaria a crise de intolerância fundamentalista em que o mundo se acha mergulhado hoje.
O próprio Lévi-Strauss, numa de suas últimas declarações afirmou: “Caminhamos para uma civilização em escala mundial. Nela, provavelmente, aparecerão as diferenças. Não pertenço mais a esse mundo. O mundo que eu conheci, o mundo que eu amei, tinha 1,5 bilhão de pessoas. O mundo atual tem 6 bilhões de humanos. Não é mais o meu.”
Pode ser que agora eu estivesse um pouco mais preparado para a profundidade da obra de Lévi-Strauss, mas ainda há tanto por ler! Talvez, como dizia Borges, depois de certa idade só devêssemos nos dedicar a reler livros que nos foram importantes. Mas ele já havia lido quase tudo, ao passo que eu…
Talvez o mundo atual também já não seja o meu.

A obra-prima ignorada
02/11/2009 at 15:32 | In Uncategorized | 3 Comments
O que é uma obra-prima? O que faz uma obra ser considerada como tal?
Antes dessas, outra indagação talvez seja mais controversa ainda: o que é uma obra de arte?
A questão torna-se especialmente tormentosa em relação às artes plásticas. Segundo Marcel Duchamp e seus ready-mades, um urinol de louça ou uma reprodução da Mona Lisa com barbicha e bigodes são ou podem ser obras de arte.
E o que dizer das chamadas instalações de hoje, cuja efemeridade, entre outras coisas, rompe com um dos atributos clássicos da obra de arte? Certa vez, numa visita ao MoMa de Buenos Aires, deparei com uma instalação em que uma grande quantidade de batatas se espalhavam por diversas mesas, interligadas por fios de eletricidade, que de vez em quando eletrocutavam as pobres batatas, algumas das quais já apresentavam a casca enegrecida pelos choques. Não me lembra o nome da obra ou da instalação (As batatas chocadas?). Ao vencedor, as batatas, diria nosso velho e bom Machado!
O copioso Honoré de Balzac escreveu uma pequena novela simplesmente apaixonante sobre o reconhecimento — ou, no caso, o não reconhecimento — de uma obra-prima, mais precisamente sobre uma pintura, Le chef-d’oeuvre inconnu (A obra-prima ignorada), da qual já ouvira falar e tinha várias referências, mesmo sem que a houvesse lido. Ocorre-me, a propósito, a classificação elaborada por Pierre Bayard no seu delicioso Como falar dos livros que não lemos? (a que fiz breve alusão num dos primeiros posts deste blog: A aventura da leitura).
Como muita gente, não li toda a obra de Balzac, nem mesmo a sua portentosa A comédia humana, que deveria compreender 150 volumes (dos quais ele conseguiu escrever “apenas” 88 ou 89), com cerca de 2.000 personagens e traçar uma visão geral da sociedade francesa da época. Li apenas o que me pareceu fundamental ou me atraiu por indicações, como A Prima Bette, Eugênia Grandet, Ilusões Perdidas, O Coronel Chambert, Pai Goriot (excepcional!). De alguns, confesso que saltei algumas páginas, mas isso não me impede de ter Balzac em alta conta, não apenas como escritor, mas também como persona, ambos extraordinários.
Como grande parte da obra de Balzac, sempre às voltas com o assédio de credores, A obra-prima ignorada surgiu de uma encomenda da revista L’Artiste, para que escrevesse para seus leitores uma novela à maneira alemã, o que merecia então o rótulo de conte fantastique (subtítulo que constava a princípio da novela), significando uma narrativa imaginária e surpreendente.
A novela tem como temas a criação, o artista apaixonado por sua criação e, como já dito, o próprio reconhecimento de uma obra, ensejando que Balzac, por meio das personagens, discorra sobre idéias e concepções do que seja a arte e a sua missão, para muitos antecipando ou profetizando o nascimento e os caminhos da arte moderna.
Inúmeras curiosidades ou acontecimentos fantásticos cercam a trajetória da novela, publicada pela primeira vez no ano de 1831, em duas partes, na revista que a encomendara. Tornou-se livro de cabeceira e obsessão de Cézanne, que se achava retratado pela personagem de Frenhofer, embora a novela haja sido escrita antes de que ele nascesse! Duas das personagens são pintores que realmente existiram, Poussin e Porbus. O local que serviu de cenário para Balzac, conhecido como Hôtel de Savoie-Carignan, 7 rue des Grands-Augustins, a uma quadra do Sena, ao lado do Pont Saint-Michel, em pleno Quartier Latin, foi o mesmo em que se instalou Picasso em 1931 e onde teria pintado Guernica, exatamente cem anos depois da primeira publicação de A obra-prima ignorada!
O próprio Balzac se mostrou perturbado com a novela, tanto que modificou mais tarde o desfecho, coisa incomum já que ele, por escrever muito e quase sempre sob pressão, raramente revia ou revisitava seus textos. Há também uma estranha dedicatória acrescida por Balzac, em 1845: “A um lorde”, seguida de cinco linhas pontilhadas, sem nenhuma palavra (o que me remete mais uma vez a Machado de Assis e ao Capítulo LV de Memórias Póstumas de Brás Cubas: O Velho Diálogo de Adão e Eva).
Depois de ter lido, finalmente, A obra-prima ignorada, com um excelente posfácio, Entre a vida e a arte, de Teixeira de Freitas (ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP e professor da ECA), com mais páginas do que a própria novela (A obra-prima ignorada / Honoré de Balzac — São Paulo: Comunique, 2003, R$ 22,00, Livraria Cultura, Livraria Saraiva), além de confirmar tudo de instigante que se dizia sobre a obra, pude uma vez mais reconhecer a obra-prima da minha santa e vasta ignorância.


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Solidão
01/11/2009 at 11:13 | In Uncategorized | 1 Comment
A solidão
é um encontro
comigo só:
atroz amigo
aprazido inimigo.
01/11/2009 at 10:46 | In Uncategorized | 1 Comment
A universidade nua, uma pílula curta sobre a minissaia que causou tanto tumulto.
O estranho íntimo
30/10/2009 at 16:51 | In Uncategorized | 3 Comments
— Bom dia (ou boa tarde ou boa noite). Como vai? É um prazer revê-lo!
— Bom dia (ou boa tarde ou boa noite). Igualmente.
A cordialidade entre nós soa falsa. Ambos sabemos disso. Mas com velada ironia insistimos nela.
Os encontros (ou confrontos) são sempre tensos. Porque nos conhecemos tanto, vivemos a nos estranhar.
Raramente nos sentimos apaziguados. Num fim de noite, num meio de página, num verso, num acorde de canção, numa taça de vinho, num suspiro.
Ele sabe o que penso. Eu penso que sei o que ele sabe e pensa.
Ele conhece meus disfarces e eu, as máscaras que usa.
Siameses contrapostos, fazemos as vezes um do outro.
Eu vivo nele e ele existe em mim.
Um dia (ou uma tarde ou uma noite), nos despediremos enfim.
29/10/2009 at 11:13 | In Uncategorized | 1 Comment
Nas Pílulas, um grande de ator, ainda pouco conhecido, atuando Nos campos de Piratininga.
28/10/2009 at 15:20 | In Uncategorized | 1 Comment
Nas Pílulas, o 5º Prêmio Bravo! Prime de Cultura.
O díspar e o par
28/10/2009 at 11:16 | In Uncategorized | 3 Comments
Aparentemente tão díspares, Tarantino e Almodóvar, que para mim são dois craques, têm muito em comum.

Enquanto Tarantino é mestre da aventura, da ação e até mesmo da violência, Almodóvar é mestre da condição humana, das relações familiares e pessoais, das paixões.
Mas ambos “brincam” com o cinema, nos transportam para o seu universo particular, são excepcionais nos diálogos, na escolha do casting, em descobrir ou redescobrir atores e atrizes, e deles tirar o melhor. Tarantino reinventou John Travolta em Pulp Fiction, como Almodóvar o fez com Penélope Cruz, sua nova musa, que sempre me pareceu apenas razoável como atriz e mulher, mas nas mãos de Almodóvar desabrochou um extraordinário talento e também uma beleza madura e insuspeitada, despertando o interesse até de Woody Allen (o que lhe valeu um merecido Oscar pela atuação em Vicky Cristina Barcelona).
Tarantino e Almodóvar têm uma marca inconfundível. Impossível não reconhecer que o filme é de um deles após assistir por poucos minutos, seja no começo, no meio ou no final. A esse respeito, em recente entrevista sobre o seu mais recente filme, Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos), que se trata de um filme dentro de outro filme, por ele mesmo definido como sua declaração de amor ao cinema (todos os seus filmes em verdade o são, como os de Tarantino), Almodóvar conta ter ficado farto de si mesmo e da fama:
— Meu nome na Espanha virou um adjetivo. As pessoas dizem: “Isso é muito almodovariano”. Para alguns, pode parecer glorioso, mas eu me sentia estranho. Era como se não falassem de mim. Comecei a ter nostalgia do anonimato.
O protagonista de Abraços Partidos, um diretor de cinema que se acha em crise e se apaixona pela estrela do filme (Penélope Cruz, é claro) que está rodando, tem o nome de Harry Caine, que Almodóvar havia cogitado de adotar para recomeçar do zero, mas concluiu que isso seria impossível porque “ninguém escapa de si mesmo”.
No seu caso, ainda bem!
26/10/2009 at 09:55 | In Uncategorized | 2 Comments
Veja a pílula ácida das segundas-feiras: O senador Luxemburgo.
Mundo bizarro
24/10/2009 at 10:18 | In Uncategorized | 2 Comments
No tempo em que eu lia gibi escondido (e assim era mais gostoso ainda), porque os sabichões da época diziam que era nocivo para a formação da criança, um dos meus favoritos era o do Super-Homem, o Homem de Aço.
Um dia, sempre às escondidas, ao passar pela banca (a minha livraria de então) para ver as novidades, deparei com um gibi diferente do Super-Homem, que acabara de chegar e que eu nunca vira antes. Trazia histórias passadas numa outra dimensão, o mundo bizarro, em que tudo era ao contrário, onde havia clones defeituosos (não me recordo se o termo já era usado) do Super-Homem e da Lois Lane, os quais eram casados, já que no mundo, digamos, normal os heróis ou mocinhos nunca chegavam às vias de fato, nem se casavam, como o próprio Super-Homem e o Fantasma Que Anda (outro dos meus preferidos), com sua eterna namorada Diana.
O planeta bizarro, em vez de arredondado, era quadrado, e os poderes do Super-Homem Bizarro eram invertidos, tais como sopro quente, visão de frio, visão microscópica (que na verdade aumentava o tamanho das coisas), visão de raio X capaz de enxergar apenas através de chumbo, etc. A Kryptonita verde, ao invés de lhe fazer mal, aumentava seus poderes. A que o afetava era a bizarra Kryptonita azul.
É claro que o Super-Homem Bizarro, também ao reverso do Super-Homem, era um malfeitor. Tinha uma aparência de pedra, o rosto distorcido e uma expressão sarcástica. A sua roupa, embora semelhante à do Super-Homem, trazia no peito um “S” invertido.
Estranhei a princípio, mas logo depois fiquei absolutamente encantado com o mundo bizarro. A começar pela estranha palavra, que não sabia bem o que significava, embora intuísse. Corri a consultar o velho Caldas Aulete ilustrado, de capa azul, que ficava na estante (hoje tenho um igualzinho, que pertencia à minha sogra e me foi dado por ela com todo o carinho quando lhe pedi), o qual indicava os significados de “caráter nobre: generoso; liberal” e ainda “Bem apessoado, de estatura alta e esbelta. Vestido com elegância e louçania”, o que não encaixava em absoluto com o que via no gibi.
Como havia acabado de ingressar no ginásio e iniciava o estudo de inglês (estava, portanto, com dez para onze anos), tinha comprado por recomendação da professora um dicionário escolar, inglês-português, português-inglês, editado pelo Ministério da Educação e Cultura (que até hoje conservo), e intrigado com o que constava do Caldas Aulete, fui verificar o significado de bizarre em inglês: “extravagante, exótico; caprichoso; grotesco, raro”. Agora sim, fazia sentido.
Creio que começavam a se manifestar então duas das minhas obsessões, que na verdade se resumem numa só: o fascínio pelo mundo das palavras e, por decorrência, pelos dicionários. Tenho um monte deles.
Depois daquele primeiro gibi, continuaram a aparecer histórias com o Super-Homem Bizarro nos gibis normais do Super-Homem, e se não me engano, houve um tempo em que o mundo bizarro ganhou uma revistinha própria.
Jerry Seinfeld, que também adora o Super-Homem, explorou o mundo bizarro em um dos melhores episódios da série (The Bizarro Jerry), em que surgem personagens que eram o oposto dele, Elaine, George e Kramer.
Muito tempo depois os gibis foram reabilitados pelos doutos, até mesmo pelos semiólogos como Umberto Eco, mas então eu já tinha penetrado num outro universo paralelo: o dos livros. Mas minhas filhas leram gibis à vontade.
Persiste, porém, minha fascinação pelo duplo, pela possibilidade de existir um mundo bizarro, inverso do nosso, onde viva o nosso outro, que faz tudo diferente do que fazemos por aqui.
Como serei eu no mundo bizarro?
Ou serei eu o contrário do outro e este o mundo bizarro? (onde o Suplicy é o Super-Homem, com a cueca sobre o terno; Lula, o indestrutível Fantasma Que Anda, adorado por pigmeus; Dilma, a Mulher Maravilha, mãe do PAC e de tudo o mais: Serra, o Conde Drácula, cuja sede insaciável não é de sangue, mas de poder)


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